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Odontologia Holística: Entenda!

Author Mateus Rodrigues    Category Dicas, Visão     Tags ,

Particularmente gosto muito de uma passagem do artigo do professor Nicholas Christakis sobre holismo, escrito em 2011, que aborda o tema relacionando o gosto de algumas pessoas em construir castelos de areia e noutras que gostam de destruí-los. Acredito que não deva ter muita graça no último, mas o que nos interessa é a primeira abordagem. “Você pode levar em minutos, um monte de cristais de sílica que foram carregados por milhares de anos pelas ondas do mar, utilizando as mãos e fazer uma torre ornamentada, se nos esforçarmos, podemos imaginar as leis da física que faz interagir cada partícula de areia com a vizinha, mantendo a forma junta até que uma força maior aparece para separá-las”.

O que me chama atenção nesse texto não é somente a construção do castelo, mas em um determinado momento você dá um passo para trás e olha para o trabalho e percebe que em toda a praia, é exatamente aqui o algo novo, não presente antes entre os infinitos grãos de areia, levantado do chão e que reflete o princípio científico da holismo.

A palavra holismo vem do grego holos, que significa inteiro ou todo e indica a ideia de que as propriedades de um sistema, quer se trate de seres humanos ou outros organismos, não podem ser explicadas apenas pela soma dos seus componentes.

O sistema como um todo determina como se comportam as partes. Assim, o princípio geral do holismo pode ser resumido por Aristóteles quando afirma nos conceitos da Metafísica que “o todo é maior do que a simples soma das suas partes”.

O termo holístico em saúde foi utilizado inicialmente pela medicina e refere-se à abordagem no tratamento médico baseada na teoria de que os organismos vivos e o meio ambiente funcionam em sinergismo como um todo integrado. Tal concepção traz implícita a mesma ideia de que, ao serem reunidos para constituir uma unidade funcional maior, os componentes individuais de um sistema desenvolvem qualidades não-predizíveis a partir de seus componentes isolados.

A medicina holística é considerada uma abordagem específica e não uma especialidade médica, não sendo exclusiva de nenhuma e podendo ser aplicada em todas. A Odontologia também pode ter uma abordagem sistêmica, baseada nos preceitos do holismo para tratar o ser humano como um todo.

A Odontologia sistêmica estuda e analisa a relação da saúde bucal com o corpo e os aspectos emocional, mental e comportamental do indivíduo. Assim, qualquer deformação ou disfunção ocorrida na cavidade bucal será visualizada como uma alteração em um complexo sistema em que todo o organismo está envolvido.

O olhar sistêmico considera o organismo como um todo e, nesse sentido, as disfunções bucais são consideradas ao mesmo tempo causa e efeito de outros problemas orgânicos.

Na Odontologia sistêmica, tudo o que acontece de alteração dentro da cavidade oral poderá repercutir no organismo em todos os sistemas biológicos, influenciando de forma direta no comportamento psicossocial, físico e familiar. Em contrapartida, alterações no somaorgânico poderão gerar algum sinal na cavidade oral e influenciar, por exemplo, na postura dos maxilares, promovendo problemas na formação, crescimento e desenvolvimento; no posicionamento dos dentes, músculos e sistema nervoso, levando a perda na homeostasia que harmoniza os sistemas respiratório e digestivo.

É importante ressaltar que essa visão não é aceita por alguns autores que a consideram como uma teoria pseudocientífica. Autores alegam que ainda não se tem comprovação científica sobre esse tema e que em alguns lugares, como nos EUA, os dentistas têm desviado o rumo do tratamento convencional como uma ação de marketing. Por outro lado, ao nos reportarmos a literatura, pesquisas que envolvem o uso de terapias alternativas e complementares para o restabelecimento do equilíbrio sistêmico com abordagem odontológica mostram-se bem estabelecidas e em franco desenvolvimento, incluindo os estudos longitudinais, que apresentam a cada dia maior constatação e penetração científica2.

Os pilares da Odontologia sistêmica foram construídos baseados nos valiosos conceitos desenvolvidos pela Odontologia clássica e pela holística. Essa perspectiva sistêmica ainda pode ser ampliada pelos recursos terapêuticos utilizados pela medicina tradicional das escolas asiáticas (Índia, China e Japão).

Sem dúvida, a introdução de novas terapias em adição às técnicas clássicas fez com que o cirurgião-dentista aprimorasse o atendimento ao paciente no consultório e estabelecesse uma relação mais íntima entre a Odontologia e organismo. Existe o questionamento por parte dos profissionais, de qual é o seu limite de atuação com práticas complementares em Odontologia.

Para elucidá-los, a Resolução do Conselho Federal de Odontologia CFO 82/2008 de 25 de setembro de 2008, “reconhece e regulamenta o uso pelo cirurgião-dentista de práticas integrativas e complementares a saúde bucal”, entre elas: Acupuntura, Fitoterapia, Terapia Floral, Hipnose, Homeopatia e Laserterapia.

Atualmente, a acupuntura odontológica angaria muitos adeptos que buscam o equilíbrio entre as alterações odontológicas e as condições sistêmicas, visando à plenitude na saúde do paciente.

A Acupuntura é uma terapia complementar que através da inserção de agulhas em pontos específicos do corpo humano ativam canais de energia, que com a correta estimulação podem trazer muitos benefícios, entre eles o de analgesia odontológica. Essa prática vem sendo realizada há mais de 5.000 anos e tem como principal objetivo o equilíbrio entre corpo e mente através da manipulação da energia que circula nos canais que se distribuem em rede por todo o organismo.

A aplicação da técnica de analgesia em Odontologia vem sendo uma das alternativas de tratamento para os pacientes principalmente para quadros de dor e com restrição no uso de determinados medicamentos. Para a Odontologia sistêmica, a acupuntura vem contribuindo no restabelecimento da saúde em procedimentos reabilitadores, periodontais e restauradores.

Tem maior eficácia no tratamento das dores craniofaciais, como as neuralgias trigeminais idiopáticas, sinusites maxilares, artrose da ATM, herpes zoster, cervicoalgias e cefaleias, portanto, essa técnica contribui de forma satisfatória e mostra ser uma excelente opção como recurso terapêutico no tratamento global do paciente.

É interessante como a principal ideia do holismo não vem naturalmente para os profissionais da área da saúde. É fácil perceber que a cavidade bucal é apenas uma pequena parte do castelo de areia que faz parte do todo que necessita de sinergismo para se manter. A Odontologia sistêmica segue o princípio da apreciação não do simples, mas do complexo, ou pelo menos da simplicidade e da coerência nas coisas complexas, como acontece em casos de reabilitação.

Podemos compreender o organismo se dividi-lo em órgãos, tecidos, em seguida em células e organelas até chegarmos ao DNA e, sucessivamente, até que todos os pormenores tenham sua importância. Associado a essa compreensão, temos os recursos terapêuticos complementares que devem ser utilizados para somar aos recursos clássicos e, ao final, se colocarmos tudo em conjunto e tentarmos entendê-los, será mais difícil, o que produzirá dúvidas que serão sanadas pelo desenvolvimento da ciência. É importante, como promotores do estado de equilíbrio entre o corpo e a mente dos nossos pacientes, pensarmos nas dificuldades de entendimento de como todas as células do corpo têm funções conjuntas em comparação com suas características individuais. Novos campos da neurociência e da biologia estão nascendo, inserindo o cirurgião-dentista nessa concretização, que surgem depois de séculos pisando em castelos de areia, a fim de compreendê-los.

Espero que tenham gostado deste excelente artigo escrito por Marcelo Mendes da revista Odonto Magazine.

Até a próxima!